quarta-feira, 25 de março de 2026

CONSERVAÇÃO DA ARARA-AZUL-DE-LEAR E SUAS IMBRICAÇÕES COM O TURISMO DO RASO DA CATARINA

 

 Olá, araras-azuis! 

Hoje eu trouxe um artigo sobre a conservação da arara-azul-de-lear. Espero que gostem!

Se quiserem ler o PDF original, clique aqui

INTRODUÇÃO
Presente na contemporaneidade, a perspectiva conservacionista aponta
especificidades sobre o fazer humano no ambiente em que vive. Por isso, é importante buscar
compreender como as questões a ela relacionada se desenvolvem no cotidiano das populações
humanas, especialmente em áreas de conservação ambiental. Rotondaro et. al (2021; p. 274-
275 ) aponta a existência de duas correntes de pensamento conservacionista que trazem
compreensões sobre a relação do homem com a natureza: uma com o olhar de natureza
“intocada”, em que os recursos devem ser preservados; e outra que traz a ideia de
desenvolvimento sustentável em que o ser humano utiliza-se dos recursos disponíveis
buscando minimizar os impactos gerados.
É importante compreender como essa perspectiva se desenha nas sociedades
pósindustriais, marcadas por um desenvolvimento acelerado que tem repercussão nos modos
de vida de todas as espécies que habitam o planeta. Sabe-se hoje que é pertinente traçar
reflexões sobre como manter o equilíbrio entre conservação e desenvolvimento regional.
Frente a esse cenário, este texto apresenta resultados de uma etnografia multiespécie
(Tsing 2019; Dooren, Kirskey e Münster, 2016) que busca compreender as relações entre
humanos e não humanos no Raso da Catarina, região localizada no centro-norte da caatinga,
bioma exclusivamente brasileiro. Trata-se de um investimento em observar a prática do
cuidado interespecífico (entre duas ou mais espécies) que permite o surgimento de práticas
de desenvolvimento sustentável do local. Ela tem como enfoque principal a análise da relação
entre a conservação da Arara-Azul-de-Lear e o turismo ligado à natureza, bem como suas
consequentes reverberações na geração de renda para os moradores do Raso da Catarina -
Bahia. A região fica localizada no norte da Bahia, entre os municípios de Paulo Afonso,
Canudos e Macururé, no sertão baiano. O Raso da Catarina atrai turistas e pesquisadores do
mundo inteiro, para atividades de lazer, estudos e/ou pesquisas.
A Arara-Azul-De-Lear é uma espécie que, de acordo com o Instituto Chico Mendes de
Conservação da Biodiversidade (ICMBio), sofre por ser alvo do tráfico de animais silvestres e
também por conta da destruição do seu habitat. Além dessas problemáticas, a espécie sofre
com o risco de morte por eletrocussão causadas pelo avanço do sistema de iluminação na
zona rural da região. Um outro problema é o conflito com agricultores que cultivam milho,
pois as araras passaram a alimentar-se do milho, causando danos a esses produtores, que
passaram a atacar as aves para afastá-las das lavouras. Por fim, há o risco de extinção de
uma das principais fontes de alimentação das araras, a palmeira licurizeiro, que produz o
coquinho Licuri.
Então, por meio de um mapeamento de atividades econômicas de turismo que levam
as comunidades a apoiar a conservação das Araras de Lear, conforme é conhecida por
ativistas, a pesquisa traz um olhar sobre a situação atual do turismo na região. Desse modo,
ao refletir sobre o contexto existente, a hipótese levantada é que tais atividades podem ser
utilizadas como uma maneira de proteger as Araras de lear e, por conseguinte, a caatinga,
com a ajuda da população da região. Assim, este texto busca apresentar resultados e
discussões em torno de dados colhidos em duas viagens a campo para pesquisa etnográfica
in lócus, ocorridas entre 6 a 14 de Agosto de 2023, e entre os dias 21 e 31 de Outubro de
2023, tendo como destino as cidades de Paulo Afonso-BA e Jeremoabo- BA, respectivamente.
METODOLOGIA
Para a realização do estudo, foi necessário a divisão das atividades em etapas. A
primeira consistiu em um mapeamento de conflitos relacionados à Arara-azul-de-lear
(Anodorhynchus leari) e de agências e práticas de turismos relacionados a natureza, no Raso
da Catarina. Nessa primeira etapa, foi possível realizar o estranhamento inicial do etnógrafo
e a narração de histórias, como sumarização dos conflitos mapeados. Na etapa seguinte, foi
realizada a observação participante de longa duração e narração de histórias como prática
científica (Despret, 2016), com foco na relação entre conservação da biodiversidade e turismo.
Na terceira etapa, aconteceu uma análise do corpus da pesquisa e as descrições sobre 
subsistência relacionada ao turismo do Raso da Catarina. Assim, visou-se a um retorno às observações e entrevistas focando no acompanhamento das articulações políticas em torno das políticas de turismo do Raso da Catarina, no poder público e nas organizações não governamentais relacionadas à conservação da caatinga. REFERENCIAL TEÓRICO Ancorado no campo de estudos das relações humano-animal, ou Animal Studies, a partir da antropologia (Despret, 2016) esta investigação assume como objeto a relação entre conservação da Arara-Azul-de-Lear, popularmente conhecida como Arara de lear, e o turismo de natureza a ela relacionado, na região do Raso da Catarina. McKercher (2002, p. 13) pondera que o segmento turismo de natureza engloba outros tipos de segmentações, como o ecoturismo, turismo de aventura, turismo educacional e outros tipos de atividades turísticas que proporcionam experiências de lazer ao ar livre, apresentando-se como um turismo alternativo ao turismo de massa. Fleischer (2007) analisa o desenvolvimento do ecoturismo na cidade de São Tomé das Letras apresentando os aspectos positivos e negativos do ecoturismo na localidade, além disso, traz reflexões sobre a relação do turismo com o patrimônio histórico. As discussões abordadas pelo autor revelam compreensões sobre a importância do planejamento turístico e da aplicação de planos de manejo que norteiam as atividades turísticas. Assim, levando em consideração o estudo de Fleischer (2007), fica evidente a importância da observação do turismo no Raso da Catarina-BA com uma visão holística a fim de mapear as relações e reverberações do turismo na região, buscando compreender as singularidades de cada localidade e a ligação com a conservação da biodiversidade. RESULTADOS E DISCUSSÃO A imprensa, recorrentemente, publica reportagens sobre conflitos socioambientais envolvendo essas aves. O site de notícias TAB UOL de Euclides da Cunha-Ba, por exemplo, em fevereiro de 2020, noticiou que, com o avanço do sistema de iluminação na zona rural da região, muitas araras têm sido encontradas mortas por entrarem em contato com a fiação elétrica dos postes da Neoenergia Coelba. Outra problemática que ameaça a sobrevivência dessas aves é o conflito com agricultores que cultivam milho, pois as araras passaram a alimentar-se desta fonte nutricional (os agricultores consideram-nas como pragas), causando danos a esses produtores que passaram a atacar as aves para afastá-las das lavouras. O site UOL (2020) traz uma matéria que discute a problemática aqui levantada, destacando que esse comportamento das aves pode ser consequência do desmatamento da vegetação nativa que abrigava alimento para as araras. A matéria destaca, ainda, que a palmeira licurizeiro que produz o coquinho licuri, uma das fontes de alimentação das araras, está também ameaçada de extinção. Contudo, por meio da coleta de dados sobre iniciativas que envolvem
 turismo e conservação será possível analisar a possibilidade do turismo de natureza, em especial o ecoturismo, ser utilizado como ferramenta a favor da conservação da biodiversidade da região. Sob essa ótica, os dados iniciais deste estudo permitem afirmar que o Rio São Francisco é muito importante para os humanos e não humanos que se articulam em torno da conservação das Araras de Lear, sendo um elemento importante para os seres que habitam o Raso da Catarina e um local de potente atividade turística. Ele é alvo de visitação dos seus moradores e turistas que desfrutam da composição de uma paisagem única; ou seja é um espaço de lazer para os nativos e para os turistas. O local apresenta áreas formadas por planaltos e depressões, como o cânion do Rio São Francisco, a Serra do Umbuzeiro e parte do Raso da Catarina, característica essa que lhe concede muitos visitantes e praticantes do turismo de aventura e ecoturismo, além de ser o território da espécie endêmica da AraraAzulde-Lear. Em diálogo com um turismólogo que atua em uma das prefeituras da região, surgiram apontamentos que indicam a necessidade de planejamento deste segmento do turismo que pode ser um grande aliado da conservação das Araras de Lear, por ser uma espécie carismática, capaz de atrair a atenção da a conservação de muitas outras espécies da região e da caatinga em sua integralidade. Segundo ele e outros trabalhadores do turismo da região, há um vasto leque de possibilidades de aliar a natureza e a conservação da biodiversidade por meio do turismo, mas que as iniciativas ainda são discretas. Em Jeremoabo - BA, a equipe do projeto a qual este texto reporta identificou a baixa presença de hospedagens e restaurantes. Lá as opções de restaurantes disponíveis apresentam uma culinária rica que guarda características gastronômicas do sertão baiano, fazendo circular historias de comensalidade de como os humanos habitaram o Raso da Catarina. Em Canudos-BA, há uma loja chamada Jardins da Arara de Lear, que está atrelada a iniciativa do Projeto da de Lear que tem como objetivo a conservação da Arara-azul-de-Lear e dos licurizeiros que correm risco de extinção, buscando despertar nos moradores locais o desejo de cultivar esta planta nos jardins de suas propriedades, a fim de que as Araras tenham alimentação garantida, além da utilização da palmeira Licuri para produzir artesanato, trazendo, assim, algum impacto para sua renda. Os dados produzidos sobre a cidade de Paulo Afonso, em comparação às outras cidades da região, indicam a existência de uma infraestrutura maior para receber os visitantes e maior investimento em um turismo de aventura com atividades ligadas a natureza, porém, ainda estuda a possibilidade de planejamento do turismo de observação de aves. Em contrapartida, a cidade de Jeremoabo, apesar de ter uma infraestrutura menor para receber visitantes, abriga iniciativas que estão se organizando para utilizar o turismo como aliado da conservação da biodiversidade local.
CONSIDERAÇÕES FINAIS Em suma, este trabalho reforça a necessidade de observação prolongada em locais onde são realizadas práticas de turismo e de hotelaria em locais marcados por extinção de espécies, aqui a Arara-Azul-De-Lear. Por meio de cadernos de campo e entrevistas, dados importantes sobre o manejo do turismo e da hotelaria têm sido produzidos, considerando o entendimento do cotidiano dos nativos, seus hábitos e costumes; da observação e visitação a projetos. Tem sido produzidos também dados sobre outros atores que se enredam na problemática, a exemplo dos ativistas, políticos e pesquisadores. Contudo, é válido destacar também que, por ser de longo prazo, são necessárias outras visitações in locus para andamento do projeto. 

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