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domingo, 2 de agosto de 2026

A Nova Biblioteca do Blog


 Olá, Araras Azuis!!!

Lembram daquele drive que eu tinha montado? Infelizmente, alguns arquivos foram corrompidos, e muitas pessoas reclamavam que não conseguiam abrir os EPUBs e outros formatos.

Por isso, desta vez estou montando um novo drive com artigos, livros e pesquisas sobre araras, todos em PDF. Assim, ele será muito mais acessível para todos, além de os arquivos estarem organizados e separados entre materiais em português e em inglês.

Espero que essa nova versão seja muito mais útil e prática para todo mundo! 

quarta-feira, 25 de março de 2026

CONSERVAÇÃO DA ARARA-AZUL-DE-LEAR E SUAS IMBRICAÇÕES COM O TURISMO DO RASO DA CATARINA

 

 Olá, araras-azuis! 

Hoje eu trouxe um artigo sobre a conservação da arara-azul-de-lear. Espero que gostem!

Se quiserem ler o PDF original, clique aqui

INTRODUÇÃO
Presente na contemporaneidade, a perspectiva conservacionista aponta
especificidades sobre o fazer humano no ambiente em que vive. Por isso, é importante buscar
compreender como as questões a ela relacionada se desenvolvem no cotidiano das populações
humanas, especialmente em áreas de conservação ambiental. Rotondaro et. al (2021; p. 274-
275 ) aponta a existência de duas correntes de pensamento conservacionista que trazem
compreensões sobre a relação do homem com a natureza: uma com o olhar de natureza
“intocada”, em que os recursos devem ser preservados; e outra que traz a ideia de
desenvolvimento sustentável em que o ser humano utiliza-se dos recursos disponíveis
buscando minimizar os impactos gerados.
É importante compreender como essa perspectiva se desenha nas sociedades
pósindustriais, marcadas por um desenvolvimento acelerado que tem repercussão nos modos
de vida de todas as espécies que habitam o planeta. Sabe-se hoje que é pertinente traçar
reflexões sobre como manter o equilíbrio entre conservação e desenvolvimento regional.
Frente a esse cenário, este texto apresenta resultados de uma etnografia multiespécie
(Tsing 2019; Dooren, Kirskey e Münster, 2016) que busca compreender as relações entre
humanos e não humanos no Raso da Catarina, região localizada no centro-norte da caatinga,
bioma exclusivamente brasileiro. Trata-se de um investimento em observar a prática do
cuidado interespecífico (entre duas ou mais espécies) que permite o surgimento de práticas
de desenvolvimento sustentável do local. Ela tem como enfoque principal a análise da relação
entre a conservação da Arara-Azul-de-Lear e o turismo ligado à natureza, bem como suas
consequentes reverberações na geração de renda para os moradores do Raso da Catarina -
Bahia. A região fica localizada no norte da Bahia, entre os municípios de Paulo Afonso,
Canudos e Macururé, no sertão baiano. O Raso da Catarina atrai turistas e pesquisadores do
mundo inteiro, para atividades de lazer, estudos e/ou pesquisas.
A Arara-Azul-De-Lear é uma espécie que, de acordo com o Instituto Chico Mendes de
Conservação da Biodiversidade (ICMBio), sofre por ser alvo do tráfico de animais silvestres e
também por conta da destruição do seu habitat. Além dessas problemáticas, a espécie sofre
com o risco de morte por eletrocussão causadas pelo avanço do sistema de iluminação na
zona rural da região. Um outro problema é o conflito com agricultores que cultivam milho,
pois as araras passaram a alimentar-se do milho, causando danos a esses produtores, que
passaram a atacar as aves para afastá-las das lavouras. Por fim, há o risco de extinção de
uma das principais fontes de alimentação das araras, a palmeira licurizeiro, que produz o
coquinho Licuri.
Então, por meio de um mapeamento de atividades econômicas de turismo que levam
as comunidades a apoiar a conservação das Araras de Lear, conforme é conhecida por
ativistas, a pesquisa traz um olhar sobre a situação atual do turismo na região. Desse modo,
ao refletir sobre o contexto existente, a hipótese levantada é que tais atividades podem ser
utilizadas como uma maneira de proteger as Araras de lear e, por conseguinte, a caatinga,
com a ajuda da população da região. Assim, este texto busca apresentar resultados e
discussões em torno de dados colhidos em duas viagens a campo para pesquisa etnográfica
in lócus, ocorridas entre 6 a 14 de Agosto de 2023, e entre os dias 21 e 31 de Outubro de
2023, tendo como destino as cidades de Paulo Afonso-BA e Jeremoabo- BA, respectivamente.
METODOLOGIA
Para a realização do estudo, foi necessário a divisão das atividades em etapas. A
primeira consistiu em um mapeamento de conflitos relacionados à Arara-azul-de-lear
(Anodorhynchus leari) e de agências e práticas de turismos relacionados a natureza, no Raso
da Catarina. Nessa primeira etapa, foi possível realizar o estranhamento inicial do etnógrafo
e a narração de histórias, como sumarização dos conflitos mapeados. Na etapa seguinte, foi
realizada a observação participante de longa duração e narração de histórias como prática
científica (Despret, 2016), com foco na relação entre conservação da biodiversidade e turismo.
Na terceira etapa, aconteceu uma análise do corpus da pesquisa e as descrições sobre 
subsistência relacionada ao turismo do Raso da Catarina. Assim, visou-se a um retorno às observações e entrevistas focando no acompanhamento das articulações políticas em torno das políticas de turismo do Raso da Catarina, no poder público e nas organizações não governamentais relacionadas à conservação da caatinga. REFERENCIAL TEÓRICO Ancorado no campo de estudos das relações humano-animal, ou Animal Studies, a partir da antropologia (Despret, 2016) esta investigação assume como objeto a relação entre conservação da Arara-Azul-de-Lear, popularmente conhecida como Arara de lear, e o turismo de natureza a ela relacionado, na região do Raso da Catarina. McKercher (2002, p. 13) pondera que o segmento turismo de natureza engloba outros tipos de segmentações, como o ecoturismo, turismo de aventura, turismo educacional e outros tipos de atividades turísticas que proporcionam experiências de lazer ao ar livre, apresentando-se como um turismo alternativo ao turismo de massa. Fleischer (2007) analisa o desenvolvimento do ecoturismo na cidade de São Tomé das Letras apresentando os aspectos positivos e negativos do ecoturismo na localidade, além disso, traz reflexões sobre a relação do turismo com o patrimônio histórico. As discussões abordadas pelo autor revelam compreensões sobre a importância do planejamento turístico e da aplicação de planos de manejo que norteiam as atividades turísticas. Assim, levando em consideração o estudo de Fleischer (2007), fica evidente a importância da observação do turismo no Raso da Catarina-BA com uma visão holística a fim de mapear as relações e reverberações do turismo na região, buscando compreender as singularidades de cada localidade e a ligação com a conservação da biodiversidade. RESULTADOS E DISCUSSÃO A imprensa, recorrentemente, publica reportagens sobre conflitos socioambientais envolvendo essas aves. O site de notícias TAB UOL de Euclides da Cunha-Ba, por exemplo, em fevereiro de 2020, noticiou que, com o avanço do sistema de iluminação na zona rural da região, muitas araras têm sido encontradas mortas por entrarem em contato com a fiação elétrica dos postes da Neoenergia Coelba. Outra problemática que ameaça a sobrevivência dessas aves é o conflito com agricultores que cultivam milho, pois as araras passaram a alimentar-se desta fonte nutricional (os agricultores consideram-nas como pragas), causando danos a esses produtores que passaram a atacar as aves para afastá-las das lavouras. O site UOL (2020) traz uma matéria que discute a problemática aqui levantada, destacando que esse comportamento das aves pode ser consequência do desmatamento da vegetação nativa que abrigava alimento para as araras. A matéria destaca, ainda, que a palmeira licurizeiro que produz o coquinho licuri, uma das fontes de alimentação das araras, está também ameaçada de extinção. Contudo, por meio da coleta de dados sobre iniciativas que envolvem
 turismo e conservação será possível analisar a possibilidade do turismo de natureza, em especial o ecoturismo, ser utilizado como ferramenta a favor da conservação da biodiversidade da região. Sob essa ótica, os dados iniciais deste estudo permitem afirmar que o Rio São Francisco é muito importante para os humanos e não humanos que se articulam em torno da conservação das Araras de Lear, sendo um elemento importante para os seres que habitam o Raso da Catarina e um local de potente atividade turística. Ele é alvo de visitação dos seus moradores e turistas que desfrutam da composição de uma paisagem única; ou seja é um espaço de lazer para os nativos e para os turistas. O local apresenta áreas formadas por planaltos e depressões, como o cânion do Rio São Francisco, a Serra do Umbuzeiro e parte do Raso da Catarina, característica essa que lhe concede muitos visitantes e praticantes do turismo de aventura e ecoturismo, além de ser o território da espécie endêmica da AraraAzulde-Lear. Em diálogo com um turismólogo que atua em uma das prefeituras da região, surgiram apontamentos que indicam a necessidade de planejamento deste segmento do turismo que pode ser um grande aliado da conservação das Araras de Lear, por ser uma espécie carismática, capaz de atrair a atenção da a conservação de muitas outras espécies da região e da caatinga em sua integralidade. Segundo ele e outros trabalhadores do turismo da região, há um vasto leque de possibilidades de aliar a natureza e a conservação da biodiversidade por meio do turismo, mas que as iniciativas ainda são discretas. Em Jeremoabo - BA, a equipe do projeto a qual este texto reporta identificou a baixa presença de hospedagens e restaurantes. Lá as opções de restaurantes disponíveis apresentam uma culinária rica que guarda características gastronômicas do sertão baiano, fazendo circular historias de comensalidade de como os humanos habitaram o Raso da Catarina. Em Canudos-BA, há uma loja chamada Jardins da Arara de Lear, que está atrelada a iniciativa do Projeto da de Lear que tem como objetivo a conservação da Arara-azul-de-Lear e dos licurizeiros que correm risco de extinção, buscando despertar nos moradores locais o desejo de cultivar esta planta nos jardins de suas propriedades, a fim de que as Araras tenham alimentação garantida, além da utilização da palmeira Licuri para produzir artesanato, trazendo, assim, algum impacto para sua renda. Os dados produzidos sobre a cidade de Paulo Afonso, em comparação às outras cidades da região, indicam a existência de uma infraestrutura maior para receber os visitantes e maior investimento em um turismo de aventura com atividades ligadas a natureza, porém, ainda estuda a possibilidade de planejamento do turismo de observação de aves. Em contrapartida, a cidade de Jeremoabo, apesar de ter uma infraestrutura menor para receber visitantes, abriga iniciativas que estão se organizando para utilizar o turismo como aliado da conservação da biodiversidade local.
CONSIDERAÇÕES FINAIS Em suma, este trabalho reforça a necessidade de observação prolongada em locais onde são realizadas práticas de turismo e de hotelaria em locais marcados por extinção de espécies, aqui a Arara-Azul-De-Lear. Por meio de cadernos de campo e entrevistas, dados importantes sobre o manejo do turismo e da hotelaria têm sido produzidos, considerando o entendimento do cotidiano dos nativos, seus hábitos e costumes; da observação e visitação a projetos. Tem sido produzidos também dados sobre outros atores que se enredam na problemática, a exemplo dos ativistas, políticos e pesquisadores. Contudo, é válido destacar também que, por ser de longo prazo, são necessárias outras visitações in locus para andamento do projeto. 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Algumas Pesquisas e Novidades

 

Olá, Araras Azuis!!!!

Eu tenho boas notícias e uma péssima. A péssima é que voltei ao Twitter porque lá era a única rede social onde meu conteúdo sobre araras tinha alcance. Por isso, desativei minha conta de estudos e criei uma nova conta pessoal, que está privada, somente para amigos e família.

Agora vamos para a boa notícia! A boa é que estou fazendo pesquisas em artigos científicos sobre a reprodução e os cuidados com os filhotes da arara-azul-de-lear. Pretendo trazer isso para o blog ou fazer uma revisão de literatura. Encontrei vários artigos em português e em inglês, tanto antigos quanto atuais, e isso é incrível! Quero entrar em contato com alguns institutos e biólogos para falar sobre o tema. Meu objetivo é trazer para o blog um artigo muito bem feito, que ajude as pessoas a entenderem mais sobre o assunto.

Por fim, tenho uma notícia que não sei se é boa ou ruim... Acho que é ruim. Bem, no ano passado, passei por um momento muito difícil e fiquei muito abalada emocionalmente. Por isso, tive que trancar a faculdade de Medicina Veterinária por recomendação médica.

Para não ficar parada, decidi começar o curso de Artes Visuais, já que gosto muito de arte em geral. Peço desculpas pela mudança inesperada de curso, mas, em breve, pretendo voltar para Medicina Veterinária, se Deus quiser. Amém!😊

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Comportamento de arara-azul-de-lear em cativeiro e a influência da técnica flocking na interação de pares (Parte 2)

 

 Olá, Araras Azuis!! Aqui está a continuação da primeira parte daquele post sobre aquela pesquisa feita por Gabriela Rodrigues Favoretto, que apresentou uma dissertação ao Programa de Pós-Graduação em Conservação da Fauna (UFSCar/FPZSP) como parte das exigências para obtenção do título de Mestre Profissional em Conservação da Fauna, sob orientação do Prof. Dr. Augusto João Piratelli, na Universidade Federal de São Carlos e Fundação Parque Zoológico de São Paulo. Essa pesquisa aborda o comportamento da arara-azul-de-lear em cativeiro e a influência da técnica de "flocking" na interação de pares. Bem, essa é a segunda e última parte da pesquisa, e pretendo em breve postar mais pesquisas acadêmicas que eu ando lendo e as revisões de literaturas que eu fiz. Então, vamos para a postagem.

Capítulo 2 A EFETIVIDADE DO FLOCKING NA INTERAÇÃO DE PARES DE ARARA-AZULDE-LEAR (Anodorhynchus leari) EM CATIVEIRO 

1. INTRODUÇÃO

O comportamento social é um processo dinâmico ligado ao desenvolvimento de relações entre indivíduos e entre esses e o ambiente. A formação de relações sociais é fundamental para muitas espécies, pois está relacionada à variação de níveis de bem estar, determinando o sucesso reprodutivo dos indivíduos envolvidos (LUCAS et al., 2003). Muitas espécies de aves são monogâmicas (DUNN; WHITTINGHAM; PITCHER, 2001) e uma das primeiras etapas comportamentais do processo reprodutivo dessas espécies é a escolha do parceiro sexual (SVEC; LICHT; WADE, 2009), sendo a formação de um casal e a vida em bando as formas de organização social nesse tipo de sistema reprodutivo (KUBITZA; BUGNYAR; SCHWAB, 2015). A seleção é feita visando o aumento do valor adaptativo dos indivíduos envolvidos com base em características comportamentais, fisiológicas e morfológicas (BOTTONI et al., 1993). Em relação às aves monogâmicas, as mudanças envolvidas no pareamento são sutis e ocorrem gradualmente em um processo muitas vezes prolongado, sendo, portanto, difícil de ser avaliado (CLAYTON, 1990). Um par pode ser definido como um casal por diversos critérios, sendo um deles o tempo despendido em comportamentos sociais afiliativos que não são desempenhados com outros membros adultos (ADKINS-REGAN, 2011). A formação desses casais pode ser avaliada pela realização de comportamentos sincronizados como alimentar-se conjuntamente, empoleirar-se próximo ou em contato com outro indivíduo, alisar as penas de outra ave, defender conjuntamente o ninho, tempo gasto dentro do ninho, perseguir uma ave ou defender parceiro pela aproximação de outros indivíduos, cortejar e solicitar cópula (CLAYTON, 1990; BOTTONI et al., 1993; ADKINS-REGAN, 2011). Em psitacídeos especificamente, o longo período de incubação associado a filhotes muito dependentes e com lento crescimento em relação a outras aves, colaboram com o desenvolvimento de um alto grau de interação entre o casal, já que requer muita cooperação mútua para que se atinja o sucesso reprodutivo de fato (KOENIG, 2001). Apesar dos programas de cativeiro terem por objetivo a criação de aves que futuramente possam ser capazes de sobreviver na natureza, pareando, reproduzindo e criando filhotes naturalmente, comumente na reprodução ex-situ os indivíduos são forçados ao pareamento, onde o macho e a fêmea selecionados são mantidos juntos em um recinto exclusivo, sendo observadas baixas taxas reprodutivas para certas espécies, em especial as ameaçadas (GAUDIOSO et al., 2002). Análises genéticas e demográficas de populações cativas fornecem informações que subsidiam estratégias reprodutivas em longo prazo, porém os objetivos imediatos dos programas de reprodução envolvem a manutenção e o sucesso reprodutivo de indivíduos pertencentes a populações cativas específicas. Neste sentido, se faz necessário a realização de estudos comportamentais em cativeiro que garantam a menor interferência humana no comportamento desenvolvido pelos animais com a produção de informações que possam ser relevantes para a melhoria de estratégias reprodutivas através da observação de comportamentos conspícuos que não são facilmente ou frequentemente observados na rotina de manejo (SIEBERT; CROWELL-DAVIS, 2001; FRANCISCO, 2012). Em relação aos pareamentos em cativeiro, as recomendações propostas geralmente envolvem apenas fatores genéticos, mas na prática um pareamento efetivo pode ser influenciado por fatores nutricionais, sociais, comportamentais, físicos e ambientais (MELLEN, 1994). A possibilidade de escolha do parceiro sexual em cativeiro aumenta a taxa de sucesso reprodutivo dos indivíduos envolvidos (IHLE; KEMPENAERS; FORSTMEIER, 2015). Sabe-se que esta liberdade de escolha é um fator que afeta diretamente parâmetros reprodutivos, como produção hormonal e taxa de defesa de ninho em espécies monogâmicas (BOTTONI, 1993). Klint, Enquist (1981) e Bottoni et al. (1993) afirmam que machos pareados por livre escolha possuem maior concentração de testosterona no plasma do que aqueles que foram forçados a parear e apresentam maiores taxas de defesa do ninho, já fêmeas que escolheram livremente seus parceiros tendem a realizar a primeira postura anos antes em relação as fêmeas que foram forçadas a parear, além de apresentarem maiores taxas de ovos fertilizado, de dispensarem mais tempo no ninho e de possuem maior taxa de postura do que fêmeas forçadas a um pareamento. A falta de sucesso reprodutivo sem causa aparente muitas vezes é consequência da incompatibilidade comportamental entre pares (BALTZ, 1998; FOX; MILLIAN, 2014), onde o pareamento forçado causa repressão na atividade reprodutiva dos indivíduos envolvidos (LUPO et al, 1990; BOTTONI et al, 1993, STONE et al, 1999) e ocasiona modificações das características fisiológicas e comportamentais relativas à reprodução, sendo extremamente importante o desenvolvimento de estratégias que sejam capazes de estimular respostas etológicas adequadas para indivíduos que possam futuramente integrar programas de reintrodução ou revigoramento (GAUDIOSO et al., 2002). A espécie Anodorhynchus leari encontra-se em perigo de extinção (BIRDLIFE INTERNATIONAL, 2013), com notória escassez de conhecimento sobre questões comportamentais e baixa taxa de casais reprodutivos em cativeiro (CORNEJO, 2015). A utilização do flocking como nova estratégia reprodutiva proposta pela FPZSP e aprovada pelo Programa de Cativeiro da arara-azul-de-lear/ICMBio permite a formação de novos casais baseada em análises comportamentais relacionadas às interações entre os indivíduos que possuem a possibilidade de livre escolha de parceiro sexual. Assim, o presente trabalho teve como objetivo acompanhar o primeiro flocking oficial realizado na história do programa de cativeiro da espécie, visando fornecer subsídios para o aprimoramento de estratégias de manejo ex-situ que possibilitem o aumento do sucesso reprodutivo de indivíduos mantidos em cativeiro.

2. MATERIAL E MÉTODOS

Área de estudo O trabalho foi realizado na sede da FPZSP, localizada na região sudoeste do município de São Paulo, e no Centro de Conservação da Fauna Silvestre do Estado de São Paulo (CECFau), localizado no município de Araçoiaba da Serra. A Fundação é membro do Programa de Cativeiro da arara-azul-de-lear e é durante o desenvolvimento do estudo era responsável pela manutenção de 17 espécimes, sendo eles 12 adultos, um juvenil e quatro filhotes. As aves são mantidas pela Fundação em áreas de acesso restrito descritas anteriormente (pg. 15-19). Coleta de dados Das doze aves adultas mantidas pela FPZSP, foram selecionadas seis fêmeas (STB 39, 57, 58, 59, 60 e 61), descritas previamente (pg. 19-21), para quantificação dos comportamentos afiliatiavos e reprodutivos (sócio-repodutivos) antes e durante a técnica flocking. A seleção das aves ocorreu através da avaliação do potencial reprodutivo desses espécimes, além de ter sido reforçada por questões judiciais que asseguravam a manutenção da maior parte dessas fêmeas pela Fundação, garantindo que estas não fossem transferidas para outras instituições ao longo do desenvolvimento da pesquisa. Após o detalhamento do repertório comportamental da espécie (Capítulo 1), foram selecionados 10 comportamentos relevantes ao estudo visando a sua quantificação, sendo eles comportamento sócio-afiliativos (alimentação conjunta, allopreening, chamar atenção, contato de bico, mutual allopreening) e reprodutivos (cortejo alimentar, pedido de cópula, copular, próximo ao ninho e dentro do ninho). A coleta dos dados ocorreu em duas fases com  aplicação da mesma metodologia para fins comparativos: uma fase prévia e uma durante o flocking. A planilha utilizada para a quantificação dos comportamentos pode ser consultada no Anexos II. A primeira etapa ocorreu na sede da FPZSP entre os dias 07/10/2014 e 04/02/2015. Os comportamentos das seis fêmeas selecionadas foram quantificados pela metodologia animal focal (ALTMANN, 1974) com registro instantâneo em intervalos de 30 segundos e duração de meia hora com três sessões diárias (às 8h, 13h e 16h) para cada indivíduo, totalizando 130 horas de observação. Também foi registrada a distância entre as aves (junto – até 30 cm; próximo – de 30 a 100 cm; longe – acima de 100 cm). Em agosto de 2015 foram transferidas oito aves mantidas pela FPZSP (STB 35 e 60, 38 e 39, 23 e 43, 61 e 58) para o CECFau e também três aves provenientes de outras instituições (STB 24, 37 e 175), totalizando 11 indivíduos disponíveis para o flocking (seis fêmeas e cinco machos). Foram mantidas separadas em pares (quando previamente pareadas) para adaptação aos novos recintos até a realização do flocking, que ocorreu no dia 29/09/2015. Em decorrência do sucesso reprodutivo alcançado pelo casal STB 47 e 59 antes das transferências, estes permaneceram na sede da Fundação. A fêmea STB 57 foi transferida posteriormente para Araçoiaba para participação de um possível segundo flocking, porém, por questões burocráticas e sanitárias o mesmo não ocorreu. Portanto, das fêmeas selecionadas para o estudo, quatro (STB 39, 58, 60, 61) foram transferidas e participaram do flocking, entretanto, uma precisou ser retirada logo no início do processo (STB 58), restando apenas três fêmeas para o desenvolvimento da segunda etapa. A segunda fase do estudo teve início no dia 17/11/2015 e se estendeu até 04/02/2016 com a aplicação da mesma metodologia desenvolvida na primeira fase, totalizando 94 horas. Todo o estudo comportamental foi realizado por um único observador. Durante o flocking, a movimentação de diversas araras simultaneamente dificultava a identificação individual, senso assim, marcações foram feitas nos espécimes (anilha de aço com fita colorida para identificação de instrumentais cirúrgicos (autoclavada), corte das retrizes, coloração do bico e das unhas, marcações de Kuraderm® nas asas ou cauda, além de marcas naturais quando presentes) com a finalidade de facilitar o reconhecimento individual (Anexo III). Em termos de durabilidade e visibilidade, as melhores marcações para este tipo de metodologia foram o corte das retrizes, as marcações naturais e a marcação com esmalte na parte central superior da maxila. As outras marcações mostraram-se pouco úteis e sem durabilidade. As marcas de Kuraderm® desaparecem com cerca de quatro dias, as anilhas tiveram suas fitas coloridas arrancadas e o esmalte nas unhas é pouco visível e tem baixa durabilidade. Análise de dados Para verificar a possibilidade de variação não aleatória nas frequências da aproximação entre as aves nas etapas pré-flocking e flocking foi utilizado o teste quiquadrado. Regressão de Poisson (modelo log-linear) foi aplicada para avaliação dos efeitos das variáveis independentes (flocking, indivíduo e período do dia) sobre a frequência dos comportamentos amostrados. Para análise específica da variação dos comportamentos reprodutivos (copular e pedir cópula) foi utilizado o teste Wilcoxon pareado. Os dados coletados durante a etapa pré-flocking para as aves que não participaram do flocking não foram utilizados nas análises. Todas as análises foram realizadas no software MYSTAT (SYSTAT Software, 2007) com intervalo de confiança a 95%. Para as análises estatísticas foram levados em consideração apenas os comportamentos com n > 10 em cada etapa. Vide Anexos IV e V para acesso aos dados. 

3. RESULTADOS 

A coleta dos dados resultou em um esforço amostral de 226 horas totais de observações. Em relação ao período pré-flocking, em 58% do tempo de amostragem não houve registro de comportamentos interativos, 36% do tempo foi dispendido no interior do ninho, 2% próximo a ele e em apenas 4% do tempo observou-se interações entre os pares (Figura 1a). Durante o flocking, o uso do paredão e área dos ninhos era feito apenas por um casal dominante, fazendo com que as outras aves deixassem de ocupar o interior e proximidades do ninho, o que ocasionou um acréscimo de 25% do tempo na permanência fora do ninho sem interação para as outras aves, porém observou-se um acréscimo de 2% no tempo investido em interações entre os pares (Figura 1b).


a) Flocking e frequência dos comportamentos sócio-reprodutivos As frequências dos comportamentos sócio-reprodutivos variaram de forma significativa em relação às etapas pré-flocking e flocking (χ 2 = 21553; g.l. = 9; p = 0,000; Loglinear), indicando a influência da técnica na alteração desses comportamentos. Esta diferença se deve ao aumento da frequência de comportamentos afiliativos como “alimentação conjunta”, “contato de bico”, “cortejo alimentar” e “mutual allopreening” observados durante o flocking (Figura 2), porém observou-se variação individual na resposta ao flocking (χ 2 = 21,35; g.l. = 2; p = 0,000; Log-linear), conforme a assimetria observada na dispersão dos dados (Figura 3).




Porém, em relação aos comportamentos reprodutivos “copular” e “pedir cópula” especificamente, não houve evidência de que a frequência tenha sido alterada pelo flocking (p = 0,42 e p = 0, 78, respectivamente; Wilcoxon), apesar do aumento significativo dos comportamentos afiliativos. Observou-se uma inversão de proporção de cópulas totais em relação aos meses, com um decréscimo das cópulas de novembro a fevereiro no período préflocking e o oposto para o período do flocking (Figura 4).


Analisando individualmente a variação dos comportamentos, foi observada a redução da frequência de cópulas e pedidos de cópula pela fêmea STB 39, porém com aumento dos comportamentos sociais (Figura 5a). Foi observado acréscimo no número de cópulas e de comportamentos sociais para a fêmea 60 (Figura 5b) e redução comportamentos sócioreprodutivos como “alimentação conjunta”, “pedido de cópula” e “cópula” para a fêmea 61, entretanto, comportamentos como “contato de bico”, “allopreening” e “cortejo alimentar” passaram a ser mais frequentes (Figura 5c).
 


b) Flocking e grau de aproximação entre pares O flocking exerceu influência significativa no tipo de aproximação entre os pares (χ 2 = 1295; g.l.: 2, p = 0,000; Qui-quadrado), sendo que as fêmeas apresentaram respostas divergentes (Figura 6). Apesar do aumento da frequência dos comportamentos sócioreprodutivos observados anteriormente, houve uma redução de 12% na permanência da fêmea STB 39 junto ao seu parceiro em relação ao observado para o período pré-flocking (Figura 6a), pois durante o flocking o macho passou mais tempo na região do ninho do que dentro dele junto a ela (Figura 7a) (como foi observado no período pré-flocking), o que ocasionou uma queda na aproximação da categoria de maior aproximação (junto). Entretanto, observa-se que a frequência do tempo permanecido junto ao macho em momentos que não envolviam interação (maior parte do tempo amostrado) teve um aumento de aproximadamente 30% em relação ao período pré-flocking (Figura 7b). O mesmo valor da redução da aproximação junto ao macho foi observado no aumento da permanência próximo a ele. Não houve diferença quanto à frequência do tempo permanecido longe do parceiro. Para a fêmea STB 60 foi observado um acréscimo de 30% do tempo junto ao macho durante o flocking em relação ao período pré-flocking, com decréscimo tanto na categoria “próximo”, quanto na categoria “longe” (Figura 6b). Para a fêmea STB 61 foi observado uma redução de 33% da proximidade junto ao parceiro com o dobro de tempo longe em relação ao período pre-flocking, já que esta fêmea teve sua parceira retirada do flocking antes do período de coleta de dados, se aproximando lentamente de um macho proveniente de outra instituição (Figura 6c).
DISCUSSÃO
A assimetria na frequência dos comportamentos é esperada, já que mesmo estando submetidas às mesmas condições de manejo, as fêmeas recebem e oferecem estímulos distintos em relação a cada parceiro, dependendo do tipo de afiliação existente previamente. A determinação de um par como um casal envolve uma variedade de critérios, existindo, portanto, diversas definições. Trillmich (1976) considera um casal um par de aves que copula ou tenta copular, com o macho dando assistência à fêmea no ninho. Cox, Goldsmith e Engelhardt (1993) considera um casal quando a cópula resulta na postura de pelo menos um ovo. Yamamoto (1989) considera que o que define um casal é a ocupação conjunta de um ninho. Com base nesses critérios, das três fêmeas analisadas para o projeto, tanto a fêmea STB 39 com o macho STB 38, quanto a fêmea STB 61 com a fêmea SBT 57 constituíram casais, não sendo o mesmo observado para a fêmea STB 60 pareada com o macho STB 35,pois apesar dos poucos eventos de cópula observados, a fêmea não explorava o ninho e o macho não fornecia assistência a ela. Todas essas configurações já eram observadas durante o período pré-flocking. Um casal tende a ser composto por um macho e uma fêmea, mas a formação de casais do mesmo sexo é relatada tanto em cativeiro quanto em vida livre (SEIBERT; CROWELL-DAVIS, 2001), e para um manejo efetivo em cativeiro, pares formados pelo mesmo sexo também devem ser considerados casais na tomada de decisões para subsidiar as estratégias de reprodução. Aves pareadas que passam longo período da vida juntas tendem a manter o vínculo mesmo na ausência de contato físico com o parceiro. Estudos demonstram que aves que foram separadas e mantiveram contato sonoro permaneceram durante seis meses preferindo o parceiro anterior a possíveis novos parceiros do mesmo grupo (STONE, 1999), o que foi também observado para o flocking. Após a retirada da fêmea STB 58, a fêmea STB 61 continuou manifestando interesse pela parceira até que esta fosse transferida novamente para a sede da FPZSP. Poucos dias depois, a fêmea STB 61 passou a desenvolver comportamentos afiliativos com o macho 175. A alta porcentagem de tempo registrada sem interações sociais ou reprodutivas está diretamente relacionada com a biologia da espécie. Em vida livre, essas aves passam 81% do tempo envolvidas em atividades de forrageamento ou descanso e apenas 5% em atividades sociais (BRANDT; MACHADO, 1990). Todas as aves previamente pareadas na sede da Fundação mantiveram seu pareamento durante o flocking, mesmo os pares que não foram considerados um casal. Isso pode ser explicado por questões de vantagens do pareamento. O flocking se mostrou uma técnica efetiva no estímulo de comportamentos afiliativos. O aumento da frequência desses comportamentos pode ser um reflexo da competição estimulada pelo flocking. A arara-azulde-lear é uma espécie altamente gregária, o que confere ao bando diversas vantagens, porém, em cativeiro a formação de bandos não é viável por limitação espacial, sendo uma das formas mais simples de gregarismo a formação de pares (SEIBERT; CROWELL-DAVIS, 2001). Quando indivíduos da mesma espécie compartilham um espaço limitado, há um aumento na competição direta por recursos, sendo que a formação e manutenção de pares representam uma vantagem no sentido adaptativo (WEST-EBERHARD, 1979). Pares dão assistência um ao outro em encontros agonísticos, assim como também inibem outras aves de atacarem seus parceiros, além de se apoiarem na competição por alimento e território (SCOTT, 1980). 84 A proximidade entre um par varia de acordo com a densidade do grupo, sendo observada maior aproximação quanto maior a densidade, permitindo assistência imediata em situações de ameaça (SCOTT, 1980), conforme o aumento da aproximação observado para a fêmea STB 60. Porém, o oposto foi registrado para as fêmeas STB 39 e STB 61. A queda da frequência de permanência do macho junto à fêmea STB 39 é justificada pela sua menor frequência na permanência dentro do ninho com a fêmea e maior frequência próximo e longe dela, porém sempre na região do ninho (paredão ou poleiro mais próximo). A possível ameaça oferecida pela presença de indivíduos que antes do flocking não tinham acesso à área ocupada pelo casal pode justificar este fato, já que previamente cada par ocupava um recinto exclusivo. A constante presença humana durante o flocking também pode ser um fator que influenciou na queda da frequência observada, pois quatro diferentes tratadores revessavam semanalmente na permanência diária no recinto para impedir possíveis brigas, sendo constante também a visita de técnicos e funcionários de manutenção. Neste sentido de defesa territorial, os machos tendem a ser mais agressivos que as fêmeas (SEIBERT; CROWELL-DAVIS, 2001), cabendo a eles a defesa e proteção do ninho, enquanto à fêmea cabe a responsabilidade da postura dos ovos e o maior investimento na manutenção dos filhotes (KOKKO; JENNIONS, 2012), justificando a maior permanência do macho na área externa do ninho. Porém, a permanência do macho no ninho no período de corte estimula comportamentos reprodutivos da fêmea (YAMAMOTO, 1989), sendo indicado, portanto, a redução de fatores que possam estimular o macho a permanecer fora do ninho como necessidade de defesa territorial. A inspeção do ninho para futura postura é iniciada pelo macho, sendo mais frequente em machos cuja fêmea realizou postura previamente (YAMAMOTO, 1989). Isto pode justificar o uso dos ninhos exclusivamente pelo casal STB 39 e STB 38, cuja fêmea já havia realizado posturas diversas vezes, porém as primeiras aves a explorarem os ninhos nos paredões foram o casal de fêmeas STB 61 e STB 58, sendo que esta última também já havia realizado posturas previamente. Depois da retirada da fêmea STB 58 do flocking, a ave STB 61 deixou de frequentar os ninhos, sendo então utilizados exclusivamente pelo casal STB 39 e STB 38, chegando à postura de oito ovos não férteis. A constante inspeção pelos técnicos e tratadores no ninho escolhido por esse casal resultou no início da exploração de outros ninhos, o que pode ter ocasionado a morte do macho STB 35, já que este macho costumava permanecer na área onde o casal passou a demonstrar interesse, sendo este macho atacado pelo casal, vindo a óbito em decorrência da gravidade das lesões e sua condição física já precária. 85 A variação da frequência dos comportamentos ao longo do dia também foi observada em vida livre. Assim como no presente estudo, Amaral et al. (2005) observou maior frequência de comportamentos relacionados a manutenção no período da manhã. Brandt e Machado (1990) observaram que o período da tarde é mais propício ao desenvolvimento de comportamentos sociais e afiliativos, em especial ao entardecer, quando os indivíduos se reúnem para retornar para os dormitórios.
 Considerações sobre os pares
 
As aves STB 47 e 59 foram mantidas pareadas pela Fundação durante mais de 10 anos e apenas em 2015 alcançaram sucesso reprodutivo com o nascimento do primeiro filhote, estando os pais com aproximadamente 10 e 14 anos de idade, respectivamente, não sendo então transferidos para participação no flocking. Este casal teve o sucesso reprodutivo alcançado sem que nenhuma alteração estrutural ou de manejo fosse feita, sendo que as aves demonstravam sinais claros de pareamento (constante aproximação, comportamentos afiliativos, permanência no interior do ninho e cópulas perfeitamente executadas), além de não apresentarem comportamentos agressivos em relação ao parceiro. Hoje, são pais de oito filhotes, sendo os outros sete nascidos no primeiro semestre deste ano. O casal STB 35 e 60 convivia bem na sede da FPZSP, desenvolvendo alguns comportamentos afiliativos, em especial de manutenção (allopreening e mutual allopreening). Permaneceram juntos por indicação do studbook em decorrência da boa variabilidade genética, porém não frequentavam o ninho e raramente tentavam copular. Alguns pares podem apresentar sociabilidade sem que sejam sexualmente compatíveis (BALTZ, 1998). Apesar de a fêmea possuir excelentes condições para reprodução (ovários desenvolvidos), o macho possuía testículos pouco desenvolvidos, condições físicas comprometidas (um olho cego e problemas pulmonares) e enfrentou algumas dificuldades durante o processo de estabilidade de dominância que ocorre naturalmente durante o flocking em decorrência disso. O casal STB 38 e 39, apesar das cópulas constantes, da ocupação do ninho e da postura de ovos (inférteis), apresentava idade avançada para reprodução (ambos com 19 anos) e alto índice de comportamentos agonísticos, como bicadas e afastamentos, podendo ser considerado um casal mais agressivo. A falta de sucesso reprodutivo pode estar relacionada a uma idade avançada, além do fato do macho não apresentar um desenvolvimento satisfatório do comportamento de cópula, tendo visível dificuldade em articular a cauda para cima,impedindo o acesso à cloaca da fêmea. Nenhuma lesão foi constatada até hoje, podendo ser a dificuldade uma disfunção puramente comportamental. As fêmeas STB 58 e 61 possuem boas condições reprodutivas segundo seus exames clínicos (ambas com 15 anos e ovários desenvolvidos). Após separação, a fêmea STB 61 demonstrou afinidade pelo macho STB 17. As constantes perturbações durante o início da aproximação entre o casal resultavam em afastamentos temporários com redução dos comportamentos afiliativos, porém sempre voltavam a se aproximar, indicando uma possibilidade viável de pareamento, desde que sejam mantidos sem contato com a antiga parceira da fêmea. As últimas informações recebidas, pós coleta de dados, relatam que esse casal se alimenta junto e permanece próximo boa parte do tempo (Angélica Sugieda, com. pess.). A fêmea STB 57 não participou do flocking por problemas sanitários e burocráticos que impediram a participação de indivíduos de outras instituições no período de realização deste estudo. Essa fêmea não demonstrou comportamentos reprodutivos enquanto na sede da Fundação, onde ocupava um recinto em conjunto com outra fêmea (não participante do projeto). Possui excelentes condições para reprodução segundo seus exames clínicos (13 anos e ovários bons), sendo imprescindível sua participação em um possível novo flocking. Desde o início do programa de cativeiro, a formação de pares reprodutivos tem sido baixa, com apenas oito casais produzindo descendentes de 1984 a 2015 (CORNEJO, 2015). Pares não reprodutivos são mantidos pareados por longos anos esperando que um dia reproduzam. Isto pode de fato ocorrer, como observado para o casal reprodutivo mantido pela FPZSP, porém não é o que se observa com frequência. Uma avaliação mais criteriosa das condições clínicas, da idade e da sociabilidade entre os pares associada a uma avaliação genética dos possíveis participantes da técnica podem contribuir com a formação de casais compatíveis e adequados geneticamente.

Conclusões:
A técnica flocking favoreceu a aproximação e os comportamentos afiliativos entre os pares, especialmente no período da tarde, no qual é indicado evitar perturbações em cativeiro. O flocking se mostrou também uma alternativa potencial na afiliação entre aves desconhecidas. O tipo de resultado alçado com a utilização desta técnica estará de acordo com o nível de relação social que as aves participantes tiveram previamente entre si. 87 Se o objetivo do manejo for a formação de novos casais (repareamento), é importante que aves previamente alocadas no mesmo recinto por muito tempo sejam separadas na participação do flocking, que deve ser realizado com indivíduos que não se conheceram previamente ou que não mantiveram contato prolongado, e neste caso, o acompanhamento científico poderá colaborar com a melhor compreensão dos critérios de seleção sexual da espécie. Porém, casais pareados previamente podem participar do processo caso o objetivo seja apenas estimular os comportamentos sócio-afiliativos das aves. É reconhecido o aumento da territorialidade e agressividade durante o período reprodutivo e em adição a isso, sabe-se que o estabelecimento dos casais ocorre antes do período reprodutivo na maioria das aves, sendo, portanto, indicado a realização desta técnica fora do período reprodutivo, com separação dos casais após constatação de compatibilidade para que possam ter livre acesso aos ninhos. O presente trabalho acompanhou o primeiro flocking oficial na história do programa de cativeiro de Anodorhynchus leari. Articular a comunicação e colaboração entre os membros é o papel fundamental dos Programas de Cativeiro estabelecidos pela Instrução normativa ICMBio n˚ 22, criando condições favoráveis para produção e compartilhamento de novos conhecimentos quanto às necessidades reprodutivas das espécies, visando assim, por uma alternativa viável em termos financeiros e estruturais, atingir os objetivos propostos. É indispensável o estabelecimento de um protocolo que padronize as observações comportamentais e que estabeleça critérios relativos ao melhor manejo e a escolha de indivíduos aptos a participarem desse tipo de projeto. As informações apresentadas neste estudo poderão servir de subsídios para o aprimoramento dos protocolos utilizados pelos centros de reprodução de instituições mantenedoras de psitacídeos ameaçados e este estudo traz algumas reflexões como um ponto de partida para que novas abordagens possam ser planejadas para as futuras realizações da técnica, que também devem ser acompanhadas cientificamente para que a produção e divulgação de informações sobre as relações sociais e preferências sexuais colaborem com melhor compreensão dos aspectos reprodutivos da espécie em cativeiro.

sábado, 10 de fevereiro de 2024

Estudo comportamental de um casal de arara - azul - grande, Anodorhynchus hyacinthinus (Latham, 1790) mantidas em cativeiro no Parque Zoobotânico Vale na Floresta Nacional de Carajás, ´ Pará, Brasil

 

Olá Araras Azuis! Hoje eu vim compartilhar com vocês um artigo acadêmico escrito por F. R. P. Pimenta, Acadêmica da Universidade do Estado do Pará - UEPA, sobre o comportamento de um casal de arara azul grande. Este artigo é essencial para quem quer saber mais sobre o comportamento dessas aves. Então, vamos para o artigo.

- Area de Estudo

´ O estudo foi desenvolvido no Parque Zoobotˆanico Vale em Caraj´as (PZV) localizado na Floresta Nacional de Caraj´as, munic´ıpio de Parauapebas, PA. Tendo sido criado em 1985, apresenta atualmente, uma ´area total de 30 ha, abrigando aproximadamente 240 animais de 60 esp´ecies da fauna brasileira. A Floresta Nacional de Caraj´as ocupa uma ´area de 3.958.226,70 ha, apresentando as seguintes coordenadas geogr´aficas (05º52”e 06º33”S, e 49º53”e 50º45”W) `a 25 km do munic´ıpio de Parauapebas, estado do Par´a, na Regi˜ao Norte do Brasil. Est´a inserida no complexo das ´areas protegidas da regi˜ao de Caraj´as, composto por unidades de conserva¸c˜ao integral ou com diversos usos como manejo sustentado de produtos de fauna e flora, atividades minerarias, uso tradicional agr´ario e prote¸c˜ao de popula¸c˜oes aut´octones. (IBAMA et al., 2004). O clima na regi˜ao ´e tropical ´umido, com inverno seco. A precipita¸c˜ao pluviom´etrica configura dois per´ıodos: esta¸c˜ao chuvosa, de novembro a abril, e esta¸c˜ao seca, de junho a outubro. A precipita¸c˜ao m´edia mensal na esta¸c˜ao chuvosa ´e 280 mm e da esta¸c˜ao seca ´e 32 mm. A temperatura m´edia anual em Caraj´as ´e de 23,80C. (IBAMA et al., 2004). 2.2 - Etograma No Parque Zoobotˆanico Vale em Caraj´as, o recinto das araras - azuis est´a posicionado entre outros cativeiros como ararajubas, tucanos e papagaios etc. As araras - azuis s˜ao mantidas em uma ´area com 16 m 2 , contendo um ninho, dois poleiros e um reservat´orio com ´agua e comida. O ninho constitui - se de um abrigo elaborado com troncos de madeira em que as araras utilizam para pernoitar. A pesquisa foi desenvolvida a partir da observa¸c˜ao de um casal de arara - azul - grande, no per´ıodo de abril a maio de 2009. A t´ecnica de amostragem utilizada para observa¸c˜ao foi animal focal (Focal Animal Sampling), que segundo Altnann(1974) ´e uma das mais empregadas em estudos de comportamentos para animais que permitem a boa aproxima¸c˜ao do observador.

No etograma foram identificadas e descritas 69 condutas comportamentais, baseadas em relatos descritos na literatura para psitac´ıdeos e tucan´ıdeos. As condutas foram agrupadas nas categorias ”deslocamento”, ”manuten¸c˜ao”, ”comportamento intra - espec´ıfico”e ”uso dos enriquecimentos ambientais”e foram descritas a partir da morfologia dos comportamentos observados. A an´alise comportamental foi realizada no per´ıodo diurno, conforme o hor´ario habitual de manejo dos tratadores no PZV a partir da primeira alimenta¸c˜ao do dia do casal, compreendendo o per´ıodo das 7:00 `as 17:00 horas. Nos intervalos pr´e - estabelecidos, os comportamentos foram classificados e quantificados, seguindo uma planilha padronizada de categorias comportamentais de Anodorhynchus hyacinthinus em cativeiro. Para todas as categorias experimentais realizou - se um fluxograma e para a an´alise dos dados utilizou - se a m´edia da freq¨uˆencia de ocorrˆencia dos comportamentos. O estudo foi dividido em duas etapas: a primeira abordou o levantamento dos comportamentos de acordo com a categoria e a segunda analisou a conduta a partir da adi¸c˜ao de enriquecimento ambiental (telha, sementes de castanha - do - par´a enroladas no jornal, palha de a¸ca´ı e palha verde). Inicialmente foi realizada uma fase de adapta¸c˜ao com os indiv´ıduos para observa¸c˜oes preliminares. Na primeira etapa foram realizadas 17 janelas de observa¸c˜ao di´arias com dura¸c˜ao de 10 minutos para cada indiv´ıduo, durante 15 dias consecutivos, totalizando 42 horas e 50 minutos/individuo. Na segunda etapa foram realizadas tamb´em 17 janelas de observa¸c˜ao di´arias, por´em com dura¸c˜ao de 20 minutos para cada indiv´ıduo, durante 15 dias consecutivos, totalizando 85 horas/individuo. A an´alise comportamental foi realizada no per´ıodo diurno, conforme o hor´ario habitual de manejo dos tratadores no PZV a partir da primeira alimenta¸c˜ao do dia do casal, compreendendo per´ıodo de 7:00 ´as 17:00 horas. Nos intervalos pr´e - estabelecidos, os comportamentos foram classificados e quantificados, seguindo uma planilha padronizada de categorias comportamentais de Anodorhynchus hyacinthinus em cativeiro. Para todas as categorias experimentais realizou - se um fluxograma e para a an´alise dos dados utilizou - se a m´edia da freq¨uˆencia de ocorrˆencia dos comportamentos.

RESULTADOS 

Na primeira etapa do etograma, na categoria de deslocamento os comportamentos favoritos foram ”Andar na tela”(23,7%, n=386), ”Parar no galho”(22,4%, n=266), seguida por ”Parar na tela”(17,2%, n=204). As categorias menos utilizadas foram ”Parar no solo”(0,2%, n=2), ”De ponta cabe¸ca”(0,4%, n=5) e ”Abaixar”(0,9%, n=11). Quando os animais deslocam - se, s˜ao movidos em fun¸c˜ao de um est´ımulo que, em grande parte das vezes, esteve representado pela alimenta¸c˜ao, ir ao encontro do parceiro ou aproxima¸c˜ao de pessoas do recinto. (Prestes, 2000). Os comportamentos de manuten¸c˜ao mais observados foram ”Vocalizar”(34,5%, n=1126), ”Sacudir penas”(9,9%, n=332) e ”Repousar cabe¸ca sobre o dorso”(5,9%, n=198). O comportamento intra - espec´ıfico mais comum foi o de ”Levantar cauda para parceiro”(29,1%, n=123), enquanto que o menos notado foi ”Ser bicado”(0,7%, n=3).  Na segunda etapa do etograma, realizada com enriquecimento ambiental, para a categoria de deslocamento os favoritos foram tamb´em ”Andar na tela”(24,2%, n=244), ”Parar no galho”(20,3%, n=205), seguido por ”Andar sobre o galho”(12,8%, n=129). Os comportamentos de manuten¸c˜ao mais observados foram ”Vocalizar”(33,6%, n=511), ”Repousar cabe¸ca sobre o dorso”(12,9%, n=196) e ”Sacudir as penas”(10,1%, n=154). A adi¸c˜ao do enriquecimento ambiental com ”sementes de castanha - do - par´a enroladas no jornal”promoveu um aumento do deslocamento dos animas em rela¸c˜ao aos demais enriquecimentos introduzidos no recinto, uma vez que o objeto despertou o interesse na procura da castanha atrav´es da busca ativa do animal para localizar o alimento. Os comportamentos de ”Andar na tela”, ”Vocaliza¸c˜ao”e ”Levantar cauda para parceiro”destacaram - se em ambas as etapas. Segundo Guedes et al., (1992), estes comportamentos est˜ao associados `a demarca¸c˜ao do territ´orio em cativeiro. As araras - azuis indicam o seu posicionamento na tela atrav´es da vocaliza¸c˜ao, caracterizando assim o comportamento de defesa do ninho diante de poss´ıveis intrusos. A presen¸ca de inimigos desencadeia respostas agressivas tanto na natureza (Guedes, 1995), quanto em cativeiro. Na natureza as araras - azuis n˜ao abandonam o ninho na presen¸ca do pesquisador e nem de grandes aproxima¸c˜oes humanas (Guedes, 1995). No entanto, no presente estudo, com a aproxima¸c˜ao de visitantes no recinto os animais se locomoveram do ninho para as telas do recinto. Segundo Hansen (2005), pode - se identificar uma dominˆancia de um individuo, sobre seu parceiro e, principalmente, sobre o ”dom´ınio”do recinto. Isso justifica o comportamento do macho, pois esse sempre foi o primeiro a ir buscar o alimento. Por´em, quando ocorria alguma intera¸c˜ao de agressividade dentro do recinto, a fˆemea apresentava um deslocamento at´e a tela (”Andar na tela”, Fˆemea-27,9%, n=387; Macho-30%, n=243) e provocava uma intera¸c˜ao rec´ıproca com o macho. Registrou - se tamb´em que a fˆemea deslocava - se at´e o poleiro mais alto do recinto (”Parar sobre o galho”, Fˆemea - 21,8%, n=302; Macho-20,8% = 169) que, teoricamente, ´e de ”dom´ınio”do individuo (Sick, 1997). A fˆemea utilizou com mais freq¨uˆencia a tela, que pode ser considerada no cativeiro como o limite da ´area de ocupa¸c˜ao, conseq¨uentemente exercendo deste modo a defesa territorial. Observou - se que a fˆemea apresenta um comportamento mais agressivo comparado ao do macho. Durante o manejo alimentar ou aproxima¸c˜ao de pessoas no recinto, a fˆemea exibia comportamentos estereotipados, como de constante deslocamento, bicadas na grade e vocaliza¸c˜ao constante. Na avalia¸c˜ao geral do estudo foram observadas 69 categorias comportamentais atrav´es do registro do etograma, totalizando 255 horas de observa¸c˜ao. Dessas condutas, foram descritas categorias padr˜oes de manuten¸c˜ao, deslocamento e relacionamento intra - espec´ıfico comportamentais. A categoria que apresentou maior porcentagem foi a de ”Manuten¸c˜ao”, totalizando 56,2% (n=3359), seguida por 36,8% (n=2198) com ”Deslocamento”. Os dados de Prestes (2000) corroboram com os observados na presente pesquisa, tendo em vista a observa¸c˜ao de comportamentos semelhantes com freq¨uˆencias pr´oximas para papagaio - char˜ao (Amazona pretrei) cativo. No comportamento de manuten¸c˜ao identificou - se 38 condutas, sendo as mais observadas ”Vocalizar”(34,5%, n=1126), ”Sacudir penas”(9,9%, n=332) e ”Repousar cabe¸ca sobre o dorso”(5,9%, n=198). Na categoria de deslocamento identificou - se 18 condutas, onde as preferidas foram ”Andar na tela”(28,7%, n=630), ”Parar no galho”(21,4%, n=471), seguida por ”Parar na tela”(13,1%, n=287). As menos utilizadas foram, ”Em cima da caixa - ninho”(0,2%, n=4), ”Ir para o solo”(0,3%, n=6) e ”Pular de um galho para outro”(0,3%, n=7). No comportamento intra - espec´ıfico identificou - se 13 condutas, sendo constatado que a mais comum foi ”Levantar cauda para parceiro”(29,1%, n=123), enquanto ”Ser bicado”(0,7%, n=3) foi a menos comum.

CONCLUSÃO

Animais cativos s˜ao geralmente mantidos com uma limita¸c˜ao de espa¸co e recursos a serem utilizados para sua rotina de vida, reduzindo os seus h´abitos, contribuindo para o desenvolvimento de alguns padr˜oes de comportamento estereotipados. Os comportamentos registrados do casal de arara - azul - grande (Anodorhynchus hyacinthinus) poder˜ao contribuir para o planejamento de recintos atrav´es do uso de enriquecimentos ambientais, promovendo o bem - estar animal e a conserva¸c˜ao da esp´ecie.

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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Identificação da microbiota da orofaringe e cloaca em filhotes de arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) de vida livre do Pantanal-MS

 

 Olá Araras Azuis! Hoje eu trago para vocês uma pesquisa acadêmica escrita  por Márcia Regina Loiko, Fernanda de Souza Abilheira, Neiva Robaldo Guedes, Daniel Thompsen Passos, Tania de Azevedo Weimer, Sérgio José de Oliveira, Mariangela da Costa Allgayer. Essses Estudos relacionados com sanidade estão sendo realizados para a conservação da arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) em vida livre. Amostras de cloaca e orofaringe de 14 filhotes foram analisadas através de métodos microbiológicos padronizados. Bactérias Gram negativas e leveduras estão presentes na microbiota dos filhotes sadios desta espécie, sendo os microrganismos Staphylococcus sp., Escherichia coli , Enterococcus sp., Klebsiella sp., Enterobacter sp., Pseudomonas sp. e leveduras presentes na cloaca e orofaringe, enquanto Proteus sp. ocorreu apenas em orofaringe e Salmonella sp. em cloaca.

Foram avaliados 14 filhotes de arara-azulgrande do Pantanal (Anodorhynchus hyacinthinus), nascidos durante a estação reprodutiva 2006 no Pantanal de Miranda - Mato Grosso do Sul. As coletas foram realizadas no momento em que os filhotes foram retirados do ninho, para os procedimentos de biometria e identificação, realizados rotineiramente pelo Projeto Arara Azul. Foram coletados 1 “swab” de cloaca e 1 “swab” de orofaringe de cada ninhego, estas amostras foram mantidas em meios de transporte StuartMR, sob refrigeração e enviados ao Laboratório de Microbiologia do Hospital Veterinário da ULBRA-RS. Os “swabs” foram semeados em placas de Ágar sangue e Ágar Mac Conkey, incubadas em aerobiose por 24hs a 37°C e em placas com meio Dermasel incubadas a 25°C em aerobiose por 4 dias segundo a técnica citada por Hirsch & Zee (2003) e Barrow & Felthan (1993). Placas do material inoculado em Ágar sangue foram incubadas em anaerobiose por 48hs à 37ºC, visando à identificação de bactérias anaeróbias (OLIVEIRA, 2000). As colônias bacterianas foram classificadas pelo crescimento nos meios sólidos, ocorrência de hemólise, coloração por Gram, testes bioquímicos de Indol, vermelho metila (VM), Voges Proskauer (VP), utilização de citrato, utilização de uréia, formação de H2 S, utilização de glicose, prova de catalase e prova de oxidase (OLIVEIRA, 2000). Algumas bactérias isoladas foram enviadas à Fundação Instituto Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) para certificação.

Os resultados obtidos através das culturas das 14 amostras coletadas da cloaca e orofaringe dos filhotes estão apresentados na Tabela 1. Podese verificar que, em geral, os microrganismos foram mais freqüentes em orofaringe que em cloaca, sendo os mais comuns, E. coli (86% na orofaringe e 43% na cloaca), Enterobacter sp. (64% em orofaringe, 21% em cloaca) e levedura (93% em cloaca e 86 % em orofaringe). A microbiota aeróbica cloacal nos filhotes saudáveis de psitacídeos mantidos em cativeiro está constituída quase que exclusivamente por bactérias Gram positivas dos gêneros Lactobacillus spp., Bacillus spp., Corynebacterium spp., Streptococcus não-hemolítico, Staphylococcus spp., Micrococcus spp. (CLUBB, 1997; FLAMMER & CLUBB, 1994; RUPLEY, 1999), Streptomyces spp. (OGLESBEE & BISHOP, 1998), Corynebacterium spp. e Gaffkya spp. (FLAMMER & DREWES, 1988; HOEFER, 1997). Nesta pesquisa foram isoladas um maior percentual de bactérias Gram negativas em filhotes de vida livre da arara-azul-grande do Pantanal clinicamente sadias. Este resultado está de acordo com Clubb (1997) e Oglesbee & Bishop (1998) que relataram que as bactérias E. coli, Klebsiella spp. e Enterobacter spp. podem estar presentes na microbiota de filhotes clinicamente sadios, e seu isolamento não requer necessariamente tratamento. No entanto vale ressaltar que as bactérias Escherichia coli, Klebsiella spp., Enterobacter spp., Pseudomonas spp., Proteus spp., Salmonella spp., Campylobacter spp.,. e leveduras em brotamento são consideradas patógenos primários ou potencialmente oportunistas (CLUBB, 1997; FLAMMER & CLUBB, 1994; OGLESBEE & BISHOP, 1998). As leveduras e fungos fazem parte da microbiota natural das aves, sendo consideradas comensais no trato gastrintestinal e na pele (GODOY, 2006).

Na avaliação da microbiota cloacal normal de 19 filhotes de vida livre de papagaios-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis) Serafini et al. (2005) isolaram Escherichia coli, Pseudomonas spp., Proteus vulgaris, Enterobacter spp., Enterobacter aglomerans, Enterobacter aerogenes Enterobacter cloacae, Providencia spp., Citrobacter diversus, Citrobacter amalonaticus, Staphylococcus spp., Streptomyces spp. e Candida spp. Os resultados estão de acordo com os obtidos no presente trabalho, evidenciando a presença de bactérias Gram negativas além das Gram positivas. As bactérias detectadas na orofaringe dos filhotes não diferiram das bactérias isoladas da cloaca com exceção da presença de Proteus sp. e ausência de Salmonella sp. Esta constatação se deve ao fato do ambiente do ninho estar contaminado com fezes e dessa forma promover a ocorrência de contaminação da orofaringe por estas enterobactérias. Pesquisas realizadas em vida livre têm demonstrado que a presença de bactérias Gram negativas parece ser normal na microbiota de aves saudáveis. Estes achados discordam dos autores Flammer & Drewes (1988) e Hoefer (1997) que consideraram a colonização do trato gastrintestinal com bactérias Gram negativas como um sinal de doença e recomendam a terapia com drogas antimicrobianas. No entanto, Clubb (1997) ressalta que a decisão da necessidade de instituir uma terapia deve ser realizada através de uma análise criteriosa entre avaliação clínica, outros testes diagnósticos, parâmetros ambientais e experiência clínica. 
Os filhotes avaliados neste estudo tiveram seus parâmetros de desenvolvimento dentro do normal e abandonaram o ninho na idade esperada (100-110 dias) não ocorrendo morbidade e mortalidade de nenhuma arara até esta data. Estes resultados evidenciam que a presença de bactérias Gram negativas é normal na microbiota de filhotes de vida livre de arara-azul-grande do Pantanal. O estudo da ecologia desta espécie associada às pesquisas direcionadas ao monitoramento sanitário é vital para sua conservação, pois possibilita um conhecimento do estado sanitário da população de vida livre da arara-azul-grande do Pantanal. Permitindo verificar quais microrganismos estão naturalmente presentes na sua microbiota e estabelecer seu potencial patogênico que possa vir a afetar a saúde de indivíduos e populações mediante alterações ambientais.
 

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

A Alimentação das Araras em Vida Livre!!


 Olá, Araras Azuis! Hoje eu vim falar sobre a alimentação das Araras em vida livre. Irei abordar as três espécies de araras azuis (arara azul grande, arara azul de lear e ararinha azul), também falarei sobreoutras araras, como a arara canindé, arara vermelha e o maracanã. Lembrando que este post tem como referências minhas aulas do curso de auxiliar veterinário e também foi revisado pelos meus professores Akira e Tais. No final, serão apresentadas as fontes de cada conteúdo, sendo que algumas informações foram extraídas do Instituto Arara Azul, slides das minhas aulas e Wiki Aves. Vamos para a postagem então. As araras Alimenta-se de frutos e sementes, os quais variam de uma região para outra. Alguns frutos que fazem parte da sua dieta são a manga, o tamarindo, o jacarandá e o ingá.Cada espécie de arara, devido ao habitat onde vive ou até mesmo por costumes e fisiologias, possui hábitos, gostos e maneiras diferentes de se alimentar, inclusive seletividade alimentar.

Alimentação da Ararinha Azul
As ararinhas-azuis geralmente viajam em pequenos grupos familiares ou pares, caçando comida ao longo dos rios sazonais e nidificando e empoleirando-se juntas nas copas das árvores. durante o dia são ativas, movimentando-se de acordo com os recursos alimentares e disponibilidade de nidificação.As ararinhas-azuis são herbívoros (granívoros, frugívoros)  ela Gosta de comer sementes de pinhão, frutos do juazeiro, além de outros típicos do seu habitat. na natureza, comendo sementes e também frutas. Em cativeiro, eles geralmente são alimentados com uma variedade de sementes, frutas e nozes, bem como importantes suplementos minerais e vitamínicos através do consumo de pequenas quantidades de carne de cacto e casca de árvore. Se vocês não sabem a carne de Cacto é a Flor Cacto.Os frutos e a flor do cacto são alimentos para aves e abelhas, e a polpa serve para o consumo humano em ensopados, massas e bolos. Por causa das secas da Caatinga Os animais que habitam a Caatinga também possuem estratégias para sobreviverem nas condições climáticas locais, sendo altamente adaptados ao clima quente e seco.
No caso das aves  ocorre um processo de migração durante o período de estiagem, uma vez que essas aves migram para regiões mais úmidas como estratégia para sobreviver ao período mais seco da Caatinga. Já as espécies de mamíferos e répteis, por exemplo, buscam regiões mais úmidas da Caatinga, no geral, áreas próximas das fontes de água, e também, zonas de maior altitude, em razão do microclima desses locais, mais ameno e úmido. 
 Alimentação da Arara Azul Grande
A arara-azul-grande apresenta um bico bastante resistente, o qual a auxilia na sua alimentação. Esses animais alimentam-se, principalmente, de frutos de palmeiras, tais como buriti, licuri e macaúba. Geralmente, as araras-azuis são observadas alimentando-se sobre o solo e em bandos, diferentemente da maioria das espécies de araras que se alimenta no topo de árvores. A alimentação em grupo é uma forma importante de proteção. Elas também gostam de comer  frutas, nozes, sementes e néctar. Suas guloseimas favoritas no zoológico incluem castanhas-do-pará, amendoins e cranberries secas.A fêmea é a responsável pela incubação do ovo, que pode durar cerca de 28 dias. Nesse período, o macho fica responsável por alimentá-la. Quando os filhotes nascem, eles são alimentados pelos pais por cerca de seis meses.



 Alimentação da Arara Azul de Lear

A maior parte da dieta da arara-de-lear consiste nas nozes da palmeira nativa Licurí – outro fator que contribui para a distribuição limitada da ave. As palmeiras Licurí são frequentemente cortadas ou queimadas para dar lugar a campos agrícolas, e o gado doméstico, especialmente cabras, derruba as árvores jovens antes que possam crescer novamente.Cada arara-de-lear pode comer até 350 nozes de Licurí por dia, usando seu bico grande e forte para quebrar as cascas duras. Outras frutas e sementes, flores de agave e culturas cultivadas, principalmente milho, complementam a dieta desta ave quando os frutos de palma são escassos. As araras-de-lear comem desordenadamente, constantemente jogando sementes no chão enquanto se alimentam em pequenos grupos. Desta forma, os papagaios ajudam a sustentar as árvores das quais dependem. Outras aves frugívoras, como o tucano-de-bico-de-quilha e o sino-barbudo , também "replantam" árvores dessa forma durante a alimentação.


Alimentação da Arara Vermelha e Arara CanindéAs araras comem uma variedade de frutas maduras e verdes, nozes e sementes, flores, folhas e caules de plantas e fontes de proteínas como insetos e caracóis. Alguns se especializam em comer frutas duras e nozes das palmeiras. Um truque que eles usam para isso é procurar alimentos em campos onde vive o gado. O gado come as nozes de dendê, que passam pelo sistema digestivo e saem pela outra extremidade sem a casca dura da noz. Isso torna as nozes mais macias e fáceis de comer pelas araras! As araras também visitam margens de rios e falésias de solo argiloso, que comem. Os cientistas acreditam que o solo pode neutralizar quaisquer produtos químicos tóxicos que os pássaros possam comer nas sementes ou nos frutos verdes.
Cerca de 20% do que as araras comem consiste em frutas e vegetais. Seus favoritos são bananas, maçãs, frutas vermelhas, pêssegos, passas e melancia quando se trata de frutas, enquanto vegetais como cenoura, tomate, pimentão e batata doce são os preferidos.As araras obtêm suas proteínas comendo insetos como gafanhotos, besouros, baratas e caracóis.as araras comem argila! Isso geralmente é visto em margens expostas de rios em reservas naturais, onde centenas de araras se reúnem diariamente para lamber argila.Embora os pesquisadores não tenham certeza do que causa esse comportamento de lamber a argila, eles acreditam que é uma forma de incluir sódio na dieta.

Alimentação do Maracanã

Nozes, amendoins, frutas e legumes (pêra, manga, laranja, maçã, ameixas, banana, pepino, milho meio-amadurecido, cenoura, etc), mistura de sementes pequenas e grandes, trigo, aveias, sementes brotadas. Comida de pombo encharcada. Precisa de uma fonte de vitamina regular e suplementos de minerais (especialmente D e B), proteína animal (camarão seco, ovo, carne de galinha e ossos).

 




REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS: 
Nutrient requirements of poultry. 9. ed. Washington: National Academy Press, 1994. 176 p.

SCHNEIDER, L. Estudo etológico de arara azul (Anodorhynchus hyancinthinus) no Pantanal de Miranda MS. 2003. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Ciências Biológicas) - Universidade Federal do Mato Grosso do sul, Campo Grande, 2003.

BORSARI, A.; OTTONI, E. B. Preliminary Observations of Tool Use in Captive Hyacinth Macaws (Anodorhynchus hyacinthinus). Animal Cognition, v. 8, p. 48-52, 2005.